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Breve História do Teatro de Bonecos
por Cia. Stromboli

Boneco é uma figura humana, animal ou abstrata movimentada manualmente por uma pessoa e não por nenhum meio mecânico autônomo, sendo também conhecidos pelo nome de Títeres. Essa definição ampla abrange uma enorme variedade de gêneros teatrais e a uma grande variedade de figuras, mas não se aplica a determinadas atividades e figuras semelhantes. Uma boneca de brinquedo, por exemplo, não é um títere, e uma menina que brinca com sua boneca como se fosse um bebê de verdade não está fazendo um espetáculo de títeres. Mas se ela colocar o pai e a mãe sentados como uma platéia e fizer a boneca andar pela beira da mesa, agindo como um bebê de verdade, então estará apresentando uma forma rudimentar de teatro de títeres.
Ao que tudo indica, o teatro de títeres existiu em quase todas as civilizações e em quase todas as épocas. Na Europa, há registros escritos já no século V a.C. Os registros escritos de outras civilizações são menos antigos, mas na China, na Índia, em Java e em muitas outras partes do Oriente o teatro de bonecos tem uma tradição tão antiga que é impossível determinar quando começou.
Os indígenas norte-americanos usam tradicionalmente figuras semelhantes a títeres em seus rituais mágicos. São escassos os registros de títeres na África, mas a máscara é traço importante de quase todas as cerimônias mágicas africanas, e é difícil traçar uma linha divisória entre o títere e um ator mascarado, como veremos mais adiante. Pode-se afirmar que o teatro de títeres ou de bonecos surgiu sempre antes do teatro escrito, ou melhor, surgiu antes da própria escrita. O teatro de bonecos é um dos instintos mais antigos da espécie humana.
Características do Teatro de Títeres ou de Bonecos
Há quem afirme que o teatro de bonecos é a forma mais antiga de teatro, que dele é que surgiu a arte dramática. Não há como comprovar nem negar uma afirmação dessas. É pouco provável que todas as formas dramáticas da humanidade tenham sido diretamente inspiradas pelo teatro de bonecos, mas está aprovado que desde tempos muito remotos o teatro de bonecos e o teatro humano se desenvolveram lado a lado, e que muito provavelmente um influenciou o outro.
A origem desses dois tipos de teatro está na magia, nos rituais de fertilidade, no instinto humano de representar aquilo que se deseja que aconteça na realidade. Ao longo do seu desenvolvimento, o teatro de bonecos foi perdendo essa origem mágica, que foi substituída por um maravilhamento infantil ou por teorias mais sofisticadas de arte e drama, mas mesmo para as platéias de hoje o fascínio do teatro de bonecos está mais perto do seu sentido mágico primitivo. Apesar de ter a mesma origem do teatro humano, o teatro de bonecos tem características especiais, que garantiram a sua sobrevivência ao longo de tantos séculos, e conservaram intacto o seu fascínio. O teatro de bonecos não é mais simples de realizar que o teatro humano; na verdade, ele é mais complicado, menos direto e muito mais exigente em termos de tempo e de trabalho. Mas depois de pronto, o espetáculo tem várias vantagens: precisa de menos gente para acontecer e é portátil; um único homem é capaz de levar um teatro completo nas costas e um elenco de títeres sobrevive praticamente para sempre.
O fascínio do teatro de bonecos se encontra em um nível mais profundo. O traço mais marcante de um boneco é que ele é impessoal. Ele é um tipo, não uma personalidade. Isso ele tem em comum com o ator de máscara ou com os atores cuja maquiagem oculta o rosto como uma máscara. Por isso os bonecos têm parentesco com os personagens fixos do teatro grego e do teatro romano, com os personagens mascarados da Commedia dell'Arte renascentista, com o palhaço de circo, com o mascarado de carnaval, com o pajé, com o sacerdote.
Num teatro impessoal, em que não existe a projeção da personalidade do ator, a essência do relacionamento entre o intérprete e o público tem de ser estabelecida por outros meios. A platéia tem de ser mais ativa. O espectador não pode ser mero espectador; ele tem de usar a imaginação para projetar na máscara do ator as emoções do drama. Muitos espectadores de uma peça de bonecos são capazes de jurar que viram mudanças de expressão na cara dos bonecos. Não viram nada, mas estavam tão envolvidos pela emoção da peça que sua imaginação emprestou aos títeres os seus próprios medos, risos, lágrimas.
A comunhão entre o ator e a platéia é o coração e a alma do teatro, e essa comunhão pode se dar de uma maneira muito especial, na verdade muito intensa, quando o ator é um boneco. A impessoalidade dos bonecos apresenta também outras características. Ela produz uma sensação de irrealidade.
Na pantomima tradicional britânica, com suas peças dos bonecos Punch e Judy, por exemplo, ninguém se importa de Punch atirar o Bebê pela janela e espancar Judy até a morte; todo mundo sabe que não é de verdade e morre de rir de coisas que seriam horripilantes se fossem representadas por atores humanos. Dizem os psicólogos que o efeito dessas peças é catártico: o instinto agressivo inato da pessoa é liberado por intermédio dessas figurinhas inanimadas. Os bonecos dão também uma sensação de universalidade. Esse é outro resultado de sua impessoalidade. Um boneco de Carlos Magno em um teatro de títeres da Sicília não é apenas a representação do rei franco do século VIII, mas um símbolo da nobreza real; e o chefe de sua guarda que morre numa emboscada não é apenas um soldadinho derrotado, mas um tipo que representa o heroísmo da cavalaria.
Da mesma forma, no teatro de bonecos da ilha de Java, o gigante grotesco é a personificação do princípio destrutivo, enquanto a esguia figura de um deus é a personificação do princípio construtivo. Nesses casos, o teatro de bonecos revela a sua proximidade com todo o espírito do folclore e da lenda. O títere adquire essas qualidades elementares de impessoalidade, irrealidade e universalidade através das estilizações impostas por suas limitações. É um erro imaginar que quanto mais realista ou natural mais eficiente será o boneco. Na maioria dos casos, o contrário é que é verdadeiro. Um boneco que simplesmente imita a natureza, jamais conseguirá ser igual à natureza; o boneco só se justifica quando acrescenta alguma coisa à natureza - por seleção, por eliminação ou por caricatura.
e altamente especializada.
• Tipos de Bonecos
Existem muitos tipos de bonecos. Cada tipo tem suas características específicas, e exige sua linguagem dramática especial. Certos tipos só se desenvolvem sob determinadas condições culturais e geográficas. Os tipos mais importantes são assim classificados:
FANTOCHES - bonecos de mão ou de luva
Esse tipo possui corpo de tecido, vazio, que o manipulador veste na mão; ele encaixa os dedos na cabeça e nos braços para movimentá-los. A figura é vista só da cintura para cima e geralmente não tem pernas. A cabeça pode ser feita de madeira, papier-maché, ou borracha, as mãos são de madeira ou de feltro. O modo de operação mais comum é usar o dedo indicador para a cabeça, e o polegar e o dedo máximo para os braços. Esse é o típico show de fantoches apresentado ao ar livre por toda a europa.
A vantagem do fantoche ou boneco de mão é a sua agilidade e rapidez; a limitação é seu tamanho reduzido e os movimentos de braços pouco eficientes.
BONECOS DE VARA
São figuras também manipuladas por baixo, mas de tamanho grande, sustentadas por uma vara que atravessa todo o corpo, até a cabeça. Outras varas mais finas podem ser usadas para movimentar as mãos e, se necessário, as pernas. Esse tipo de figura é tradicional nas ilhas indonésias de Java e Bali, onde são chamadas de wayang golek.
Em geral, o boneco de vara é adequado a peças de ritmo lento e solene, mas são muitas as suas potencialidades e grande a sua variedade. Porém é muito exigente quanto ao número de manipulares, exigindo sempre uma pessoa por boneco, e às vezes duas ou três para uma única figura.
MARIONETES OU BONECOS DE FIO
São figuras grandes controladas por cima. Normalmente são movimentadas por cordões ou fios que vão dos membros para uma cruzeta de controle na mão do manipulador. O movimento é feito por meio da inclinação ou oscilação da cruzeta de controle, mas os fios são também puxados um a um quando se deseja um determinado movimento. Uma marionete simples pode chegar a ter nove fios: um em cada perna, um em cada mão, um em cada ombro, um em cada orelha (para mexer a cabeça) e um na base da coluna, para fazer o boneco se inclinar. Efeitos mais detalhados podem exigir o dobro ou o triplo desse número. A manipulação de uma marionete de muitos fios é uma operação complexa que exige grande treinamento.
As marionetes européias são capazes de imitar praticamente todos os movimentos humanos ou de animais. No começo do século XX, porém, chegou-se a um naturalismo tão grande que as marionetes correram o sério risco de se transformar numa forma estéril de arte, sem maiores possibilidades de desenvolvimento. Alguns titeriteiros, começaram a achar que o controle com fios era indireto demais e muito sem firmeza para obter certos efeitos dramáticos, e por isso passaram a utilizar bonecos de vara. Mas nas mãos de um intérprete sensível, a marionete continua sendo a forma mais delicada e mais exigente da arte do teatro de bonecos.
TEATRO DE SOMBRAS
Trata-se de um tipo especial de figura plana, utilizada para projetar sombras em um telão semitransparente. Podem ser recortadas em couro ou qualquer outro material opaco, como nos teatros tradicionais de Java, Bali e da Tailândia, além do tradicional "sombras chinesas" da Europa do século XVIII; nos teatros tradicionais da China, Índia, Turquia e Grécia, e em diversos grupos modernos da Europa, as figuras podem ser recortadas também em couro de peixe ou em outros materiais transparentes.
Elas podem ser operadas por baixo, com varas, como no teatro javanês; com varas que ficam em ângulo reto com a tela, como nos teatros chinês e grego; ou por meio de cordões escondidos atrás dos bonecos como nas sombras chinesas. O teatro de sombras não precisa se limitar a figuras planas. Ele pode lançar mão também de figuras tridimensionais. O teatro de sombras é uma arte de grande delicadeza, e o aspecto incorpóreo dos bonecos de sombra é exemplo eloqüente da força do teatro de títeres como forma artística.
OUTROS TIPOS
Esses cinco tipos não são os únicos. Existem, por exemplo, bonecos manipulados à vista da platéia. Os mais interessantes desse tipo são os bonecos bunraku japoneses, que receberam esse nome em homenagem ao seu criador, um titeriteiro japonês do século XVIII, Uemura Bunrakuken. Essas figuras têm metade ou até três quartos da altura de uma pessoa e podem chegar a exigir três operadores por boneco. O manipulador principal controla os movimentos da cabeça usando um sistema de fios dentro do corpo do boneco, podendo mexer as sobrancelhas e girar os olhos. Com a outra mão, ele manipula o braço direito da figura; o segundo manipulador se encarrega do braço esquerdo; e o terceiro movimenta as pernas; a coordenação entre esses três artistas exige um treinamento prolongado e rigoroso
Bastante semelhantes, mas muito mais grosseiros são os bonecos de ventríloquo. A ventriloquia, a técnica de falar sem mexer a boca, dando a impressão de que a voz vem de outro lugar, não tem nada a ver com o teatro de bonecos. Mas as figuras usadas pelos ventríloquos, com seus ricos movimentos faciais, são títeres em toda a acepção do termo. Essa técnica, em que um ator humano carrega seu boneco no palco e conversa com ele vem sendo muito desenvolvida em alguns grupos de teatro experimental. O ator às vezes fica invisível, usando técnicas de "teatro negro" (roupa preta sobre fundo preto, com iluminação que mostra só o boneco), mas muitas vezes o operador fica inteiramente visível.
Há formas menores de teatro de bonecos, como o boneco de dedo, que o manipulador veste na mão, usando dois dedos para fazer as pernas. Ou o tipo ainda mais simples, cilíndrico e oco, que o operador enfia nos dedos. As figuras gigantescas que desfilam pelas ruas em certas festividades européias e americanas também são uma espécie de títere, embora não representem nenhuma história. O mesmo se pode dizer dos dragões das festas de rua chinesas, encontrados também em certas regiões da Europa, como Tarascon, na França. Na verdade, sempre que um homem se esconde dentro de uma figura ou máscara, pode-se falar de títeres, ou bonecos. Muitos grupos de teatro de bonecos da Polônia hoje apresentam peças com atores mascarados. O grupo norte-americano Bread and Puppet é outro exemplo dessa tendência.
A separação entre atores humanos e bonecos fica cada vez mais tênue. No passado, muitos bonecos tentavam aparentar e agir como seres humanos, mas hoje em dia muitos atores humanos tentam aparentar e agir como bonecos. Atualmente, o teatro de títeres não é mais considerado apenas como um gênero dramático específico, mas como uma manifestação legítima do teatro total.
OS TÍTERES NO MUNDO CONTEMPORÂNEO
No mundo de hoje o teatro de bonecos enfrenta grandes dificuldades, ao lado de grandes oportunidades. As platéias dos espetáculos folclóricos tradicionais praticamente desapareceram. Os espetáculos de Punch e Judy das cidades praianas da Inglaterra e o Guignol que se apresenta nos parques de Paris ainda atraem multidões, mas os teatros fechados, que antes atraíam platéias mais humildes, hoje sobrevivem com dificuldade, geralmente contando com o apoio de um conselho municipal ou museu local.
O teatro de bonecos é cada vez mais considerado uma atividade voltada para as crianças. Trata-se, sem dúvida, de uma linguagem que entusiasma as crianças, e, na história geral do teatro infantil, o teatro de bonecos tem papel importante. Alguns grupos se contentam em representar apenas para crianças. Mas outros desejam produzir também para uma platéia adulta. Que tende a não se interessar por bonecos. No Ocidente, nenhum grupo consegue sobreviver com um repertório exclusivamente adulto.
Mesmo as companhias que fazem espetáculos para crianças enfrentam grandes dificuldades econômicas devido ao número reduzido de espectadores que pode ser atingido nas apresentações de bonecos e ao baixo preço que se tem de cobrar pelo ingresso das crianças. Se algumas companhias continuam apresentando espetáculos de qualidade é por dedicação à arte.
Bonecos no Brasil
No Brasil existe uma grande variedade de tipos de bonecos, na região Sul há grupos tradicionais, no Nordeste há manifestações folclóricas como os bonecos gigantes de carnaval e o teatro de mamulengos.
A Cia. Trucks, trabalha com bonecos de espuma que as vezes exigem três manipuladores por boneco, a Cia. Caixa de Imagens criou espetáculos miniaturizados que só podem ser vistos por uma pessoa por vez, o famoso grupo Giramundo, produziu uma enorme variedade de tipos de bonecos, e muitos outros grupos pesquisam e enriquecem a arte do teatro de bonecos no Brasil.
Mamulengo é o nome dado ao teatro de bonecos em Pernambuco, uma brincadeira com mão molenga. As histórias feitas com mamulengos são quase sempre improvisadas, vão tomando forma na mão do mestre durante o espetáculo. As Trapaças de Benedito, de Manuel Amendoim, Simão e o Boi Pintadinho, de Mestre Valdeck, entre muitas outras histórias são exemplos de peças desse tipo, que sempre terminam em pancadaria. Há muita dança e música, sempre ao vivo. Um espetáculo pode contar com a ajuda de um contramestre, nas cenas com muitos bonecos. Os espetáculos normalmente são feitos em festas na rua e portanto os bonecos e cenários, chamados barraca, torda, empanada ou tenda, são dobráveis e fáceis de transportar. A cabeça do Mamulengo é entalhada no mulungu, uma madeira leve e resistente e o corpo é feito com tecidos estampados e de cores fortes. Na mala portátil de um mestre, sempre existe um boi, uma cobra, um herói (Benedito), sua namorada, um capitão ou coronel, um padre e um diabo, personagens típicos de todo teatro de mamulengos, é um estilo de teatro muito espontâneo e ativador do processo criativo.

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